Apesar da pressão e das sinalizações públicas de aliados sobre a necessidade de uma reorganização do governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou, neste primeiro momento, por uma reforma ministerial que fortaleça o PT. A estratégia do petista, no entanto, tem gerado ruídos em alas de partidos do Centrão, que já defendem um desembarque do governo antes do período eleitoral de 2026.
A promessa de mudanças na Esplanada dos Ministérios se arrasta desde o final do ano passado e surgiu, principalmente, em meio às dificuldades de a gestão aprovar suas medidas no Congresso Nacional. A função de interlocutor do Executivo junto ao Legislativo foi desempenhada na primeira metade do mandato de Lula por Alexandre Padilha, um dos quadros do PT.
Ele ficou à frente da pasta mesmo sendo um desafeto público do então presidente da Câmara, Arthur Lira, entre 2023 e 2024. Para tentar destravar as votações na Casa ao longo desse período, Lula precisou escalar o ministro da Casa Civil, Rui Costa, para intermediar os acordos com o deputado.
Com as chegadas de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) às presidências da Câmara e do Senado, respectivamente, havia uma pressão por parte dos partidos da base para que Lula também trocasse Padilha da interlocução política. Nomes como o do ministro de Portos e Aeroporto, Silvio Costa Filho, que é do Republicanos, o do deputado Isnaldo Bulhões (AL), líder do MDB, e o do senador Jaques Wagner (PT-BA) estiveram entre os cotados para o posto.
A avaliação desses parlamentares é de que o “perfil ideológico de Gleisi” vai servir apenas para o governo petista seguir “falando para sua bolha”. Além de partidos da base, a escolha de Lula também foi alvo de críticas por integrantes da oposição.
“Lula escolheu Gleisi Hoffmann para assumir a articulação do governo, apostando, mais uma vez, que os mesmos velhos erros vão magicamente produzir resultados diferentes”, afirmou Filipe Baros (PL-PR).
Governo tem dificuldades para atrair mais apoio no Centrão
A pasta da Saúde conta com o terceiro maior orçamento da Esplanada dos Ministérios, cerca de R$ 242 bilhões para 2025. Ainda na primeira metade do governo, o cargo de Nísia Trindade chegou a ser alvo de negociações entre Lula e partidos do Centrão, como o PP.
O presidente, contudo, acabou entregando o ministério do Esporte para o partido por meio da indicação de André Fufuca. O acordo, naquela época, também resultou na troca de comando da Caixa Econômica Federal, quando o economista Carlos Antônio Vieira Fernandes, indicado por Arthur Lira, foi nomeado pelo governo para o lugar de Rita Serrano.
Após deixar a presidência da Câmara, o próprio Lira passou a ser sondado para assumir um ministério, como forma de ampliar o apoio dentro do PP ao governo. Apesar disso, o deputado vem sendo aconselhado pelo senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP, e por outros líderes a promover um desembarque da base governista ainda neste ano.
“Está muito próximo de termos de reunir o partido e tomar uma decisão definitiva de desembarcar. Gosto muito do ministro Fufuca, mas, se o governo não tiver uma mudança radical de rumos para o país, não tem nem como a gente, daqui a pouco, permitir que os membros do partido participem desse governo”, declarou em Nogueira entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.
Além do PP, a pressão pelo desembarque do governo Lula neste momento também acontece dentro do União Brasil, que atualmente comanda três ministérios. A ala que pressiona pela saída é liderada pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que será lançado pré-candidato à Presidência da República em 4 de abril.
O lançamento da pré-candidatura de Caiado vai acontecer em Salvador (BA), justamente na região em que o ex-prefeito ACM Neto pretende costurar uma candidatura de oposição ao PT no governo da Bahia. Principal interlocutor do União Brasil junto ao governo atualmente, o senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado, disse recentemente que ainda não foi chamado por Lula para tratar sobre reforma ministerial.
“Especificamente sobre essa agenda, o presidente Lula, nem seus auxiliares, me questionaram ou pediram minha opinião. Tenho certeza de que em algum momento vamos fazer essa conversa”, disse Alcolumbre em entrevista à Rede TV! na quinta-feira (27).
O movimento pelo desembarque se dá ainda na bancada do Republicanos, que hoje tem o Ministério de Portos e Aeroportos. Líderes do partido admitem que não há interesse em assumir novos cargos no governo Lula, pois a avaliação é de que o ministro Silvio Costa Filho é um dos poucos nomes da legenda com proximidade junto ao Palácio do Planalto.
Popularidade de Lula amplia riscos de apoios no Centrão
Levantamento divulgado na quarta-feira (20), pelo Paraná Pesquisas, mostrou que 55% dos entrevistados desaprovam o governo Lula e 42% aprovam. Em relação à pesquisa feita em janeiro, Lula tinha 50,4% de desaprovação e 46,1% de aprovação.
No último dia 15, o instituto Ipec apontou que 62% dos eleitores responderam que Lula não deveria concorrer à reeleição. Dias antes, o Datafolha já havia mostrado que a aprovação de Lula é de apenas 24%, o menor patamar registrado nos três mandatos do petista.
O número registrado pelo Datafolha em fevereiro representa uma queda de 11 pontos percentuais em comparação com a pesquisa de dezembro do ano passado, quando a aprovação era de 35%.
“Quero dizer uma coisa para vocês, quem me conhece sabe que nunca levei definitivamente a sério qualquer pesquisa feita em qualquer momento. Uma pesquisa serve pra você estudar, saber se tem que mudar de ação ou comportamento. Quero entregar o país da forma como prometi na campanha eleitoral”, minimizou Lula.
Neste cenário, o próprio presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou em entrevista que Lula estava “refém” de ideologias e falava apenas para sua “bolha”. “Não adianta Lula fazer o que Bolsonaro fez e ficar o tempo todo falando para uma bolha que o faz errar”, declarou Motta ao jornal O Globo. Segundo ele, o governo precisa entender que “quem mais precisa quer resultado, não discurso”.
Lula dobra aposta na agenda da esquerda para 2026
Após a indicação de Gleisi Hoffmann para a pasta responsável pela interlocução com o Congresso, integrantes do PT saíram em defesa da atual presidente do partido. A posse da deputada como ministra está marcada para 10 de março.
“Sua condução do PT em tempos tão complexos para o nosso partido é prova de como você está à altura do desafio. Conte comigo na Câmara para o que precisar nessa missão”, comentou o deputado Nilto Tato (SP) nas redes sociais.
Outro deputado do partido ouvido pela reportagem avaliou que que Lula escolheu a atual presidente do partido justamente para ampliar a agenda da esquerda no Congresso Nacional. O parlamentar aposta que o perfil ideológico de Gleisi se faz necessário justamente para fazer frente aos temas encampados pela direita, como por exemplo, o projeto da anistia aos presos do 8 de janeiro.
“Sempre entendi que o exercício da política é o caminho para avançarmos no desenvolvimento do país e melhorar a vida do nosso povo. É com este sentido que seguirei dialogando democraticamente com os partidos, governantes e lideranças políticas”, escreveu Gleisi sobre a indicação.
A futura ministra foi uma das articuladoras para que o PT fechasse apoio ao nome de Hugo Motta na disputa da presidência da Câmara no final do ano passado. O feito, segundo petistas, pode ajudar na interlocução do governo com o deputado nas agendas do governo.
“Recebi ligação do presidente Lula comunicando a indicação da deputada Gleisi para o cargo de ministra das Relações Institucionais. Sempre tive boa relação com ela no Parlamento. Desejo pleno êxito na nova função e continuaremos o diálogo permanente a favor do Brasil”, escreveu Motta nas redes sociais.
Metodologia das pesquisas citadas
O Paraná Pesquisas ouviu 2.010 eleitores em 162 municípios de 26 estados e no Distrito Federal entre os dias 13 e 16 de fevereiro. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, com índice de confiança de 95%.
O Ipec entrevistou 2 mil pessoas em 131 municípios entre os dias 6 e 10 de fevereiro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança utilizado é de 95%.
A pesquisa Datafolha ouviu presencialmente 2.007 pessoas, de 16 anos ou mais, entre 10 e 11 de fevereiro. A margem de erro geral do levantamento é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.