Final de outubro de 2024, e no início de uma noite de outono, há três partidas de futebol acontecendo no Coram’s Fields, no norte de Londres, na Inglaterra. Em dois dos três campos, as pessoas estão jogando futebol entre amigos – o tipo supercompetitivo – depois do trabalho. O outro está sediando um torneio de quatro equipes entre Escócia, Brighton, Arsenal e Shakhtar Stalevi.
Seus gritos são familiares, a competitividade é inabalável. Eles são amputados: vítimas de minas terrestres, baixas de guerra, vítimas do câncer ou de acidentes de trânsito. O tilintar das muletas e o baque quando elas atingem o chão ecoam por esse pequeno canto da Inglaterra.
O número de ucranianos que perderam membros desde que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou a invasão do país vizinho em grande escala – no dia 24 de fevereiro de 2022 – varia de acordo com quem você pergunta. O número real é mantido em sigilo, mas provavelmente está entre 50.000, atribuído ao Ministério da Saúde da Ucrânia em novembro de 2024, e 100.000, citado pelo presidente da Associação Ucraniana de Futebol, Andriy Shevchenko, em janeiro de 2025, ao explicar por que o esporte para amputados é uma prioridade. “O futebol tem um poder único de ajudar na reabilitação e na recuperação”, disse o ex-atacante de Dínamo de Kiev, Milan, Chelsea e seleção ucraniana, atualmente com 48 anos.
O Shakhtar Stalevi tem 13 desses jogadores. Antes da guerra, alguns já eram soldados, como o primeiro capitão da equipe, Ivan. Os demais eram civis que se alistaram para lutar, com exceção de um atleta que tinha 12 anos quando a guerra começou.
Três desses jogadores falam sobre suas experiências em Londres. Andrii H., 34 anos, era operador de máquinas sênior em uma fábrica de papelão ondulado. Ele tem uma esposa e dois filhos. “Fui ferido no dia 16 de outubro de 2022, durante a libertação da província de Kherson, especificamente perto do vilarejo de Veremiivka. Pisei em uma mina terrestre, meu pé foi explodido e meu calcanhar parecia uma rosa.”
Andrii K., pai de três filhos, trabalhava na construção civil. “No dia 10 de maio de 2023, eu estava posicionado perto de Soledar. Começou um bombardeio, então nos escondemos sob uma proteção em uma trincheira. A artilharia nos pegou. Havia cinco de nós lá dentro. Dois dos meus companheiros morreram na hora, outro enquanto estava na UTI, e eu perdi um braço e machuquei a perna.”
A casa de Tymofii, um estudante de 14 anos, foi atingida por um míssil russo em março de 2022. Ele sofreu vários ferimentos de estilhaços na cabeça, no corpo e nos membros e perdeu os dedos da mão direita.
’O Shakhtar está me trazendo de volta à vida’
Quando o Shakhtar Donetsk, maior clube da Ucrânia, ouviu histórias como as de Andrii H., Andrii K. e Tymofii, prontamente formou seu próprio time de futebol para amputados. O objetivo: usar o esporte como forma de ajudar soldados e civis feridos a lidar com seus traumas e auxiliar em sua reabilitação. Eles vêm de todos os cantos do país, de diferentes origens e estilos de vida, mas compartilham a experiência comum de terem sofrido lesões que mudaram suas vidas durante esse conflito.
Todos eles encontraram uma nova irmandade em Stalevi. “Mesmo depois dos ferimentos, mesmo depois dos fracassos, não desistimos”, disse Andrii K.
Após três horas de torneio, a equipe relaxa em um bar local, onde as TVs mostram as últimas notícias da guerra. No início do dia, eles conheceram Valerii Zaluzhnyi, que foi comandante-chefe das forças armadas ucranianas até fevereiro de 2024, quando foi nomeado embaixador do país no Reino Unido.
Tymofii mostra a alguns turistas franceses em uma mesa próxima a caneta que Zaluzhnyi assinou para ele. Eles querem pagar uma bebida aos jogadores, dizendo que são heróis, mas o trio do Shakhtar recusa educadamente, dizendo que estão apenas cumprindo seu dever.
Em vez disso, eles querem falar sobre futebol. Os jogadores do Stalevi vão se encontrar com o astro ucraniano Oleksandr Zinchenko após a partida entre Arsenal e Shakhtar, pela Champions League, no dia seguinte.
A conversa então se volta para o torneio que eles terão em janeiro de 2025, chamado League of Mighty. Eles estão desesperados para melhorar e impressionar. Mas, o tempo todo, eles continuam fazendo referência ao que essa equipe significa para eles.
Como disse Andrii H: “O Shakhtar está me trazendo de volta à vida.”
’Eles nos protegeram, agora precisamos ajudá-los’
Os jogadores do Stalevi se reúnem e treinam três vezes por semana em Kiev. Eles saem diretamente do centro de reabilitação, do hospital, de centros militares ou de novos empregos para fazer um treinamento competitivo, acelerado e intransigente, com todos os jogadores se esforçando ao máximo.
“Sabemos que o número [de feridos e amputados] é enorme e sabemos que o futebol é uma ferramenta de socialização e reabilitação”, afirmou Inna Khmyzova, diretora da fundação social do Shakhtar. “A ideia era dar aos nossos soldados a oportunidade de encontrar, provavelmente, alguma esperança, algum objetivo na vida, e fazer algo de bom para eles, porque eles nos protegeram e agora precisamos ajudá-los.”
O Shakhtar Donetsk é 15 vezes campeão do Campeonato Ucraniano. Originalmente, a equipe estava sediada na região de Donbas, no leste, mas desde que os separatistas russos invadiram essa parte do país, em 2014, eles foram forçados a uma existência nômade. Na última década, jogaram em Lviv e Kharkiv; atualmente, seus jogos da liga acontecem em Kiev, enquanto as partidas por disputas europeias se dão do outro lado da fronteira, em Gelsenkirchen, na Alemanha.
A equipe foi formada em 5 de fevereiro de 2024. O Shakhtar nomeou Bohdan Bilko, um técnico da base, como o primeiro treinador da equipe. Todos os membros do grupo têm suas próprias histórias sobre como encontraram Stalevi.
Depois que Andrii H. perdeu a perna ao pisar em uma mina terrestre em Veremiivka, ele foi evacuado para Kirovohrad, Vinnytsia e, finalmente, para Kiev. “Minha mais recente reamputação foi em janeiro de 2024”, detalhou. “Passei por sete cirurgias no total.” Enquanto se recuperava da última, ele recebeu a visita do ex-goleiro do Shakhtar, Andriy Pyatov, no hospital. Como parte dos deveres de embaixador do clube, o atleta viajou para hospitais e centros de reabilitação em busca de possíveis jogadores para se juntar à equipe. Em um hospital em Kiev, ele conheceu Andrii H.
Eles deram aos jogadores fundadores da equipe algumas sugestões de como a equipe poderia se chamar. “Para nós, não queríamos enfatizar sempre que se tratava de futebol de amputados, que era para pessoas que se machucaram”, explicou Khmyzova. O grupo optou por se chamar ‘Shakhtar Stalevi’, traduzido livremente como “Feito de Aço”. “Esta é uma equipe de homens ucranianos fortes e inquebráveis… estamos apenas começando”, disse Andrii H.
Andrii adora futebol e adorava assistir ao ex-atacante da Ucrânia Andriy Shevchenko. “Depois da lesão, o Shakhtar está me trazendo de volta à vida física, mudando a direção do meu desenvolvimento”, afirmou Andrii. “Continuamos evoluindo, mas agora como jogadores de futebol. Tem sido uma grande mudança de atividade.”
Andrii fala sobre o último ano enquanto lida com seu novo trabalho diário como motorista de entregas em Kiev. “Eu queria voltar [para o front]”, garantiu ele. “Mas minha esposa é totalmente contra, ela não quer de jeito nenhum. Muitas pessoas têm esses pensamentos.” Esta tarde, ele tem tapetes pesados para transportar, mas sua perna direita está doendo devido à toda pressão exercida sobre ela pelo futebol.
As regras do futebol para amputados dizem que os jogadores de campo devem remover suas próteses enquanto estiverem jogando, apoiando-se em muletas. Os goleiros colocam o braço lesionado dentro da camisa. Quando Andrii para em vários pontos de entrega, ele sobe e desce do caminhão com facilidade. Stalevi o mantém ativo.
“O Shakhtar Stalevi FC é como uma outra família para mim. Há minha família civil, minha família militar e agora há também minha família do futebol. Agora tenho dois motivos para viver: minha família e o futebol.”
’Eu amava a vida’
Um dos amigos mais próximos de Andrii no Stalevi é Valentyn, de 23 anos. “Antes da guerra, eu acordava como um estudante comum, lavava meu rosto, ia para a universidade, ia para a aula. Eu queria que tudo passasse mais rápido para que eu pudesse ir ao treino de futebol, ir a boates, caminhar ou relaxar. Eu era jovem. Eu amava a vida.”
Na noite de 23 de fevereiro de 2022, ele jogou futebol com seus amigos; acordou com Putin anunciando a invasão russa em larga escala da Ucrânia. Um dia depois, ele se alistou.
Em 23 de junho de 2023, foi enviado para ajudar na contraofensiva em Klishchiivka, um vilarejo no leste da Ucrânia ocupado pela Rússia. Quando acordou, estava no hospital, tendo sofrido um ferimento de projétil na perna direita, acima do joelho. “A bala ricocheteou com muita força e rompeu as artérias. Não havia suprimento de sangue para o membro inferior. Disseram-me que tentaram colocar uma artéria protética para restaurar o fluxo sanguíneo. Não conseguiram, então, em desespero, simplesmente cortaram a perna. Foi só isso.”
Ele se lembra de como, após a lesão, costumava ficar deitado na cama do hospital imaginando se voltaria a jogar. Foi então que ele encontrou Stalevi. “O futebol foi inicialmente um tipo de reabilitação para mim, até mesmo psicológica”, diz Valentyn. “Antes de Stalevi, eu tinha duas horas de aulas com especialistas em reabilitação e um dia inteiro livre. E você passa o dia inteiro livre deitado na cama entre quatro paredes brancas, olhando para o teto branco. E agora há o Shakhtar: um lugar onde posso ir para relaxar e também para jogar futebol. Isso é legal.”
O técnico, o primeiro capitão e a vida de goleiro
Bohdan é o treinador principal do time. Ele costumava trabalhar com crianças, passando quatro anos treinando na base do Shakhtar Donetsk. Quando lhe foi oferecida a chance de começar no Stalevi, ele tinha uma compreensão limitada do jogo para amputados.
“Tive que me perguntar: qual seria a minha utilidade para esses caras? Como posso ajudá-los? Eu seria capaz de ensiná-los? E quando percebi que de fato conseguiria fazer isso, concordei imediatamente em assumir esse cargo”, detalhou Bohdan. “Essa é uma experiência nova para mim, assim como é para eles. Todos nós aprendemos juntos.”
Eles tinham apenas um punhado de jogadores para a primeira sessão de treinamento, mas ele tinha que formar um elenco. Para goleiros como Andrii K. e Tymofii, ele viu um obstáculo inicial. “Pelo que observei, os goleiros têm uma espécie de barreira psicológica que os impede de pular, porque [cair no coto] dói muito”, disse Bohdan. “Esse é o objetivo número um para os goleiros, superar esse medo e colocar sua técnica em ação: saltar, abaixar, reagrupar-se.”
Alguns dos jogadores do Shakhtar e da Ucrânia doaram uniformes que estavam sobrando. Andrii K. recebeu um par de luvas do goleiro do Benfica e da Ucrânia, Anatoliy Trubin. “Eu só precisava da direita, o outro goleiro ficou com a esquerda”, disse o jogador.
À medida que os jogadores se aproximavam, Bohdan podia ver seu processo de cura. “Suas emoções se tornaram mais vivas, eles se tornaram mais abertos.”
O primeiro capitão do Stalevi é Ivan, um jovem de 28 anos de Poltova. Ele fala baixo, mas deliberadamente, com autoridade suave. A braçadeira foi entregue a ele por Taras Stepanenko, o capitão do time principal do Shakhtar. “O mais importante é nunca desonrar essa braçadeira, assim como você nunca deve desonrar sua unidade [militar], o emblema do seu clube ou a braçadeira de capitão”, afirmou Ivan.
Os jogadores não se conformaram com a patente militar quando entraram para a equipe: eles se juntaram como iguais. “Cada um deles é de fato um líder”, disse Bohdan. “Isso é algo que eu entendo e sinto.”
Terapia no restaurante
Depois de cada treino, a equipe vai tomar chá ou café em um restaurante de Kiev perto de onde jogam. Eles conversam sobre o time, sua família, o desempenho do Shakhtar na Champions League e quais jogadores o clube deveria contratar. O que chama a atenção é sobre o que eles não falam.
“O mais importante é que os rapazes conversam entre si”, explicou Ivan. “Esse é um momento raro e um cenário raro em que os soldados não discutem a guerra, porque toda vez que nos encontramos, acabamos relembrando os eventos do conflito. Aqui podemos conversar por horas sem que ninguém mencione o serviço militar. Isso ajuda com o TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático).”
Ivan, um dos poucos jogadores que estavam no exército antes da invasão russa, adora esses intervalos. Quando os separatistas russos invadiram a região de Donbass, na fronteira leste da Ucrânia, em 2014, Ivan se alistou e serviu no corpo de sinalização por um ano. Ele decidiu se mudar de 2015 a 2019, mas a atração pela terra natal permaneceu constante. “Por que construir algo na Europa quando posso construir algo aqui, em meu próprio país?”
Em 23 de fevereiro de 2022, um dia após o anúncio da invasão em grande escala, ele se inscreveu novamente. Em abril do ano seguinte, Ivan foi enviado para a Zona Cinzenta, uma terra de ninguém entre as forças ucranianas e russas, não estritamente controlada por nenhuma delas.
“No dia 2 de setembro de 2023, tínhamos uma missão de rotina – nossa unidade de forças especiais estava realizando reconhecimento na Zona Cinzenta.” Além do combate, ele foi encarregado de encontrar seus companheiros mortos para que pudessem ser evacuados ou terem seus corpos recolhidos. “Depois de concluir a tarefa, toquei em um dispositivo explosivo na saída. Minha perna direita voou muito rapidamente. Eu disse pelo rádio: ‘Stal-300, está tudo bem, sou canhoto’. Então, talvez isso me ajude a jogar futebol agora que ainda tenho minha perna principal.”
“Graças ao heroísmo e às ações coordenadas dos rapazes, eles me tiraram de lá rapidamente. Esse nem sempre é o caso na Zona Cinzenta”, explicou Ivan. “Minha evacuação levou quatro horas. A segunda perna foi salva inicialmente – eu tinha um torniquete. Se a evacuação tivesse levado oito horas em vez de quatro, as duas pernas teriam sido amputadas. Mas, de modo geral, meu ferimento não foi dos piores. Liguei imediatamente para minha mãe e disse a ela: ‘Minha cabeça está bem, minha coluna está intacta, meu estômago está bem’”.
O tratamento de Ivan durou quatro meses. “A parte mais longa da reabilitação foi esperar que a perna encolhesse. É quando eles ajustam os encaixes da prótese.”
Amizade e uma linda história de amor
Ele encontrou Stalevi por acaso. Estava caminhando perto do centro de reabilitação em Kiev e esbarrou em alguém – Bohdan – vestindo um agasalho completo do Shakhtar. Os dois conversaram sobre o plano de montar um time de futebol. “Contei ao nosso serviço médico sobre essa iniciativa, e eles também convidaram outros rapazes. E foi assim que surgiram os primeiros jogadores”, relembrou Ivan.
“O que mata você não é a lesão, não é o fato de você não ter uma extremidade, mas é a ociosidade, a falta de atividade, que é a ruína de um militar”, afirmou Ivan. “O futebol é uma questão de confiança, assim como no exército. Sem confiança e compreensão, nada funciona.”
No Stalevi, Ivan encontrou amizade, mas também encontrou amor. Ivan usou a equipe para voltar ao seu melhor condicionamento físico, mas também foi essencial para sua recuperação a fisioterapeuta (e agora médica-chefe do Stalevi) Olya. “Pode-se dizer que ela me ensinou a andar novamente”, disse ele. À medida que sua recuperação progredia, as sessões se tornaram menos frequentes, mas os dois mantiveram contato. Ela o ajudou a se acostumar com sua perna protética; ele a ensinou a dirigir.
No último mês de agosto, o time estava em uma sessão de treinamento conjunta com equipes de amputados de Cherkasy e Lviv. Ivan a pediu em casamento ali mesmo, na frente de seus colegas de equipe. “Ela ajuda os rapazes de todas as maneiras possíveis, aborda a fisioterapia de vários ângulos e trata os rapazes: massagens, aplicação de fita adesiva, agulhas secas, acupuntura. E é perfeita para essa função porque realmente se importa. É uma voluntária por natureza. Talvez todos esses caminhos estivessem me levando a ela.”
“Eu a amo muito. Ela é tudo para mim.” Os dois têm uma filha juntos, e outro está a caminho.
Devido à logística difícil, o Shakhtar joga amistosos contra as outras quatro equipes ucranianas de amputados uma ou duas vezes por mês. Entretanto, em janeiro de 2025, participaram de seu primeiro torneio oficial – a League of Mighty. Ivan foi o capitão do time, mas essa também seria sua última aparição com a camisa do Shakhtar por um tempo.
O capitão está voltando para a linha de frente. “Você pode comparar isso aos bombeiros que estão apagando uma casa em chamas. Eles não deixam o trabalho inacabado. É a minha profissão. Se um bombeiro sofre uma queimadura que não o impede de trabalhar, ele não desiste”, explicou Ivan. “Alguns acham que perder um membro é o fim. Não, não é. Eu me casei.”
“Quero que isso progrida e que mais pessoas participem. No longo prazo, acredito que nossa equipe de militares amputados vencerá torneios internacionais. Um time de soldados deve ser imbatível. São pessoas que lutam até o fim.”
O capitão volta ao front e o primeiro gol
É 11 de janeiro de 2025, e o ambiente pré-jogo no vestiário do Shakhtar é como qualquer outro. Andrii H. está sendo massageado na região lombar. Andrii K. está de cabeça baixa, imaginando se será escolhido para jogar no gol. Ivan está perdido em pensamentos. Outros jogadores estão sentados, curvados para a frente, ouvindo; alguns já tiraram suas próteses, colocando uma meia do Shakhtar sobre a extremidade da perna amputada.
Bohdan está usando ímãs em um quadro branco para explicar alguns planos táticos. “Vocês têm força interior? O que é o futebol comparado a isso?” disse ele à equipe. “Mas essas qualidades os ajudam a dominar o adversário. E hoje, aquele que mantiver a concentração por mais tempo, que for mais disciplinado e que quiser mais, esse é o que terá sucesso. É isso que faz a diferença.”
Estas são a primeira e a última partida de Ivan como capitão, já que o time enfrenta o MSC Dnipro na partida de abertura da League of Mighty. Antes do início do campeonato, Shevchenko – o lendário ex-atacante de Chelsea e Milan – fala a jogadores e torcedores. “Este primeiro torneio de futebol para amputados da UAF demonstra que nada é impossível quando há determinação e uma equipe de apoio.”
Cinco equipes participam. Há uma nova equipe mista chamada FC Kyiv, MSC Dnipro, de Cherkasy, e duas de Lviv: FC Pokrova AMP e FC Pokrova-2. E há o Stalevi. O Shakhtar empatou com o MSC Dnipro e perdeu para o AMP FC Kyiv por 2 a 0.
Antes do segundo dia, após uma pequena cerimônia no vestiário, Ivan passou a braçadeira de capitão para Valentyn, de 23 anos. “Valik foi um dos primeiros a se juntar ao time”, explicou Ivan. “E ele está muito envolvido na vida da equipe em todos os seus aspectos, com os rapazes e a organização. É por isso que ele é a pessoa certa.”
Alguns dias após o torneio, Valentyn está no centro de reabilitação, recebendo uma nova prótese. Ele está deitado em uma mesa, folheando fotos do torneio, e uma máquina está aliviando a dor em sua perna amputada.
O Shakhtar terminou o torneio sem nenhuma vitória, mas conseguiu fazer seu primeiro gol. Foi contra o Pokrova AMP, quando Ruslan, de 36 anos, pegou a bola no meio de campo, a conduziu e acertou um belo chute no canto inferior esquerdo do goleiro. O jogador caiu no chão, de barriga para baixo, exausto. Ivan foi o primeiro a parabenizá-lo antes que ele fosse encoberto pelos colegas de equipe. Valentyn e Ivan o ajudaram a levantar sobre sua perna.
Valentyn sorri quando lhe perguntam sobre a honra de ser nomeado capitão depois de Ivan e como sua perspectiva de vida mudou. “O que mudou [em minha vida]? Talvez nada tenha mudado radicalmente: a visão do mundo, a visão da vida em geral e o significado da vida. Apenas me tornei um pouco mais consciente de algo que não havia percebido antes, por exemplo. Eu me lembro que costumava reclamar constantemente e agora entendo – bem, eu era um tolo. Tudo estava bem.”
Valentyn foi a escolha unânime para suceder Ivan, e é seu papel levá-los à primeira vitória. Ao ser perguntado sobre o que espera alcançar nessa função, ele disse: “Estar à altura das esperanças daqueles que me confiaram essa braçadeira de capitão, que queriam que eu me tornasse capitão.”
’Você precisa apreciar o que tem hoje’
É 4 de fevereiro de 2025, e o Shakhtar Stalevi está comemorando seu primeiro aniversário. Alguns jogadores se reúnem, incluindo Valentyn, Andrii H. e Tymofii. Eles posam para uma foto em grupo, em frente a balões laranja e pretos e um número um dourado. No ano passado, eles realizaram 104 sessões de treinamento e jogaram 12 amistosos. Nesse período, mais equipes de amputados estão se formando na Ucrânia, e há um torneio na Inglaterra em abril, no qual o Stalevi espera jogar. A esperança é que todos os cinco times ucranianos da League of Mighty viajem, enquanto o Brighton e o Arsenal participarão novamente, ao lado do West Brom., da Irlanda e da Escócia. Os jogadores do Stalevi estão ansiosos para mostrar às outras equipes o quanto melhoraram desde os jogos de outubro passado.
Tymofii ainda está na escola em Kiev, mas treina três vezes na semana depois das aulas. “É uma equipe muito importante para mim.” “Eu tinha um sonho antes da guerra de jogar pelo Shakhtar e esse sonho se tornou realidade durante a guerra.”
Andrii H. está ansioso para melhorar o meio-campo do Stalevi, mas seu apreço pela vida agora é parcialmente definido pela devastação que testemunhou nas linhas de frente. “Você precisa apreciar as coisas”, disse ele. “Você precisa apreciar o que tem hoje. O amanhã pode nunca chegar. Essa é a dureza do presente. Aprecie seus entes queridos, sua família, o ambiente ao seu redor e, em geral, aprecie o que você tem, o que você conquistou. Não tenha inveja, porque você tem o que algumas pessoas não têm.”
O capitão da equipe, Valentyn, quer liderar a equipe da mesma forma que Ivan, mas também tem suas próprias esperanças. “Meu objetivo é correr 50 metros no asfalto. Correr e ficar sem fôlego, sem oxigênio”, afirmou. “Isso é o que eu realmente quero. Mas eu entendo que querer não é suficiente, você precisa trabalhar para isso.”
Stalevi continua a receber novos jogadores. A brutalidade da guerra significa que há novos amputados todos os dias. Bohdan esteve presente em todas as 104 sessões de treinamento e testemunhou em primeira mão os benefícios que essa equipe pode oferecer. “Eles têm um desejo feroz de jogar”, disse. “Eu vejo fogo em seus olhos. E quando os vejo jogar contra outras equipes, eles se esquecem de tudo.”
“Eles entendem que a vida continua. Tenho vivido o que todos os outros ucranianos têm vivido: tragédia, tristeza. Mas, de modo geral, isso significa que há esperança.”
“Entendo que posso ser útil para nossos rapazes, para nossos veteranos. Esse processo [de reabilitação] é uma via de mão dupla. Acho que o futebol os ajuda muito a resolver seus problemas, suas tarefas, suas questões pessoais. Muitos deles sonhavam em jogar no Shakhtar FC. E esse sonho se tornou realidade, pois hoje eles são jogadores do Shakhtar Stalevi FC”, continuou Bohdan.
Após as comemorações, a equipe arruma os balões, Tymofii pega o número um dourado e eles se dirigem aos bancos, nos quais retiram seus membros protéticos. O treinamento começará em breve. “Cada um de nós está se recuperando à sua maneira, mas nos mantemos unidos, somos uma equipe, apoiando uns aos outros”, falou Andrii. “Por isso, acho que tudo vai dar certo.”