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5 pontos para entender o desabamento da popularidade de Lula

A crescente desaprovação ao terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reiterada por duas pesquisas divulgadas nos últimos dias, decorre de fatores variados, com destaque para o mau humor da população com a piora do custo de vida, particularmente com os preços dos alimentos.

Esse cenário provoca apreensão no Palácio do Planalto e entre seus aliados em razão do horizonte curto para revertê-lo, a tempo de tornar Lula eleitoralmente viável em 2026, dentro do projeto de reeleição. Veja os principais pontos para entender a impopularidade recorde de Lula e as implicações de cada uma.

1. Alta dos preços dos alimentos e pessimismo com a economia

Principal fator de desgaste da imagem de Lula apontado nos levantamentos recentes, a subida da inflação, sobretudo a percebida nos alimentos, contraria o discurso de fartura da campanha do presidente em 2022 e atinge em cheio classes menos favorecidas, historicamente ligadas a ele.

A prévia da inflação de fevereiro, por exemplo, registrou uma alta de 1,23%, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira (25) pelo IBGE. Foi o maior índice registrado para o mês desde 2016, quando chegou a 1,42%.

A pesquisa da CNT/MDA, divulgada nesta terça-feira (25), mostra que 31,8% do eleitorado brasileiro aponta a economia como a área em que o governo desempenha pior. Além disso, 68,9% disseram que os preços estão aumentando de forma acentuada, acima do que mostra a inflação, citando principalmente as variações de preços do café, carne, grãos e ovos. O governo federal foi considerado o principal culpado pelo problema por 41% dos entrevistados.

2. Erros de comunicação e persistente desconexão do eleitorado

Apontadas pelo próprio Lula como a maior razão da sua perda de aprovação, à medida que a população não estaria se dando conta das “entregas” da atual gestão petista, as falhas de comunicação e a desconexão do presidente com seu eleitor continuam, mesmo após o início de novo comando na área, com a chegada de Sidônio Palmeira à Secretaria de Comunicação (Secom).

O argumento principal do presidente era de que iniciativas como o programa Pé de Meia e a ampliação do Farmácia Popular não afetavam positivamente a avaliação do governo, fato atribuído à inação do ex-ministro da Secom Paulo Pimenta, que acabou sendo substituído.

A desconexão com o eleitorado fica evidente quando Lula ignora a preferência dos trabalhadores, sobretudo mais jovens, por alternativas no ramo do empreendedorismo, mais distante da agenda de direitos trabalhistas que o chefe de governo e seus ministros de Trabalho e Previdência seguem enaltecendo.

3. Dificuldade de Lula em dar nova cara e rumo ao seu ministério

A hesitação após as sucessivas promessas de promover ajustes na equipe ministerial, para corrigir erros de gestão e para acomodar novos apoios na base parlamentar, ampliou a percepção do público de imobilismo diante de problemas sérios em saúde, comunicação e coordenação do Executivo.

O bate-cabeça entre ministros provocou recuos de iniciativas e trocas de responsabilização. A perda de oportunidade de realizar mudanças na Esplanada dos Ministérios também fez com que programas conhecidos e novos não deslanchassem ou tivessem suas falhas amplificadas, expostas ao noticiário. Problemas com vacinas e soluções para crises pontuais, como a importação do arroz, tudo com desconfiança em torno da transparência, pesaram.

4. Percepção de avanço da violência urbana e da insegurança

O governo ignorou desde o início a demanda crescente da população acerca da insegurança pública, cada vez mais percebida pelo noticiário. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, alguns dos estados mais populosos do país, a violência é vista como o problema mais grave.

Embora haja um compartilhamento da responsabilidade das questões de segurança pública com os governadores, a falta de ações concretas do governo federal tem prejudicado a imagem do governo. Além disso, Lula e o Ministério da Justiça têm feito uma abordagem equivocada, com propostas paliativas ou de caráter altamente controverso, como o Plano Pena Justa, elaborado em parceria com o Conselho Nacional de Justiça a partir de uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).

O plano, já lançado, é avaliado por especialistas e autoridades na área de segurança pública como uma metodologia para o desencarceramento em massa e privilégios a presos com elevado risco à segurança pública.

5. Enfrentamento do agronegócio e outros setores econômicos

Os embates de Lula e o agronegócio, tratado por ele como rival ideológico, ganharam patamar mais crítico diante da forma como o governo lida com a inflação dos alimentos. Atacadistas e varejistas também passaram a ser alvo da pressão do presidente, que tenta, em vão, controlar a formação de preços. Uma ala do governo vê a exportação de alimentos como uma das razões pela inflação, o que contribui para gerar mais atritos com o setor.

Na semana passada, o governo se viu em meio a uma crise com agricultores depois do anúncio da suspensão temporária do Plano Safra por falta de verbas. Setores do agronegócio afirmaram que a suspensão do programa de financiamento a juros subsidiados poderia ocasionar impactos à produção de alimentos e à segurança alimentar. Após a repercussão negativa, o governo editou uma medida provisória que abriu crédito extraordinário de R$ 4,1 bilhões para atender ao Plano Safra 2024/2025.

Pesquisas refletem mal-estar geral nas ruas e supermercados

As dificuldades de Lula em lidar com a piora da economia ficaram explícitas na nova rodada da pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira (26). Em dois meses, sua desaprovação superou a aprovação em oito estados que somam 62% do eleitorado (veja a metodologia aplicada no fim desta reportagem).

Antes da Quaest, o levantamento CNT/MDA, divulgado na terça-feira (25), mostrou que a desaprovação de Lula, puxada pelo desconforto econômico, alcançou 55% e aprovação recuou para 40%. Os números indicam parcela de apoio alto, mas com rejeição em alta (veja metodologia no fim do texto).

O retrato das pesquisas confirma a erosão no apoio a Lula desde a posse, mas mais acentuadamente nos últimos meses. Com isso, articulações entre governistas ganham dinâmica mais tensa e a oposição se beneficia. Para especialistas, abril de 2026 é o limite para a “virada” do presidente, quando haverá desincompatibilização de ministros.

É esperada, então, uma intensificação de ações populistas, com publicidade, pronunciamentos e entrevistas para tratar de anúncios de obras e programas sociais, tudo guiado pelo marketing do ministro da comunicação, Sidônio Palmeira.

Analista não enxerga chances de Lula reverter quadro de impopularidade

Para Leonardo Barreto, da consultoria política Think Policy, o cenário de degradação da popularidade de Lula é aparentemente irreversível, considerando não apenas sua posição, mas também o fato de já ter passado a metade do mandato. A dificuldade, ressalta, está em o presidente compreender o contexto político atual e as aspirações do eleitorado, bem diferentes do percebido nos seus mandatos anteriores.

“As pesquisas divulgadas mais recentemente (CNT e Quaest) consolidam o cenário de colapso da popularidade de Lula e do seu governo. As quedas em redutos eleitorais petistas, como Bahia e Pernambuco, revelam um verdadeiro filme de terror”, destacou o cientista político.

Ele lembra que não é apenas a inflação que faz erodir a confiança do eleitorado até então fiel ao presidente. O endividamento elevado das famílias e empresas somado à escalada das taxas de juros também criam o ambiente favorável à desaprovação. A perspectiva de uma piora nos indicadores econômicos até 2026 complica ainda mais essa equação.

Briga com agronegócio mostra insistência em manter rusga ideológica

Para o analista financeiro Júlio Hegedus Netto, a notícia da suspensão temporária do Plano Safra soou no mercado de capitais como uma retaliação do governo ao agronegócio, tachado de aliado da oposição, sobretudo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu entorno, tendo, inclusive, sido chamado por Lula de “ultradireita” e “fascista” logo no começo de seu terceiro mandato.

Essa represália também pode revelar, na opinião de Netto, não apenas um viés político, mas também uma desorganização do Ministério da Fazenda, sobretudo do secretário do Tesouro, Rogério Ceron.

“Diante da questão fiscal muito delicada, com falta de recursos para fazer frente às crescentes despesas, o governo aparentemente decidiu cortar na área errada”, sublinhou ele, lembrando o grande dinamismo do setor agropecuário e seu papel decisivo para controle da inflação, sobretudo dos alimentos.

Confira as metodologias aplicadas às pesquisas CNT e Quaest

Das pesquisas de opinião citadas na reportagem, a Quaest foi realizada nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Goiás, com 9.182 entrevistados presencialmente entre os dias 19 e 23 de fevereiro. A margem de erro varia de 2 a 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

Já a nova rodada da Pesquisa CNT de Opinião, realizada de 19 a 23 de fevereiro, entrevistou 2002 pessoas de forma presencial em todo o país, com distribuição por região proporcional ao tamanho do eleitorado. O nível de confiança é de 95%.

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